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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Quem decide que você tem cara de confiável?

Belo texto pra refletir sobre o preconceito que está dentro de todos nós.

Luiz.

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Escrito por Leonardo Sakamoto

Uma moça usando um hijab, tradicional véu muçulmano que esconde o cabelo e o colo mas não o rosto, cruzou o raio-X da sala de embarque do aeroporto de Barcelona sem disparar o alarme. Mesmo assim, teve que passar por averiguação minuciosa, com detectores de metal manuais e as costumeiras perguntas bobas sobre a bagagem de mão.
Não imagino que alguém diante da questão “Quem organizou esta bolsa?'' vá responder com “Foi o Estado Islâmico''.
Com semblante de pouca ou nenhuma surpresa, riu da situação e obedeceu. Outra fiscal de imigração perguntou ao colega o porquê da dupla checagem. E ele respondeu sem constrangimentos ou mesmo pudor de ser ouvido pelos outros passageiros: “por causa do véu''.
Creio que, em algum momento futuro, vamos olhar para trás e nos arrepender não só das grandes ignomínias – como a invasão de países em nome do petróleo ou o fomento a conflitos internacionais que geram refugiados – mas também da tradução dessa geopolítica estúpida no dia a dia. Pois a discriminação que surge como efeito colateral da busca por garantir segurança à população só eleva os ânimos e torna essa proteção mais distante.
Quando viajo para fora, não raro sou intensamente sabatinado em algum posto de imigração. Tenho certeza de que, naquela tela de computador do pessoal de fronteira, quando digitado o número do meu passaporte, pula um aviso FEOP – “Faça esse Otário Pastar''.
– O senhor é brasileiro mesmo? Sakamoto não é nome brasileiro… (Não, tô mentindo so porque é cool ser brasileiro e ser japonês não tá com nada. Dá vontade de perguntar quantos sobrenomes “brasileiros” o sujeito conhece…)
– O que quer dizer esta entrada nos Emirados Árabes no seu passaporte? (Você não conta para ninguém? Significa que estive lá.)
– E esse visto da Colômbia? (Ah, não, esse ai é de mentira. Coloquei porque, com a série Narcos bombando, isso vira hype)
– Tem alguma documentação que prove que é jornalista mesmo? (Diploma, via Sedex 10, serve? Mas adianto que a Justiça cassou a obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão no Brasil então o papel só vale para cela especial no xilindró.)
– O que faz com frequência nos Estados Unidos? (Poderia dizer a verdade que sou pesquisador de uma universidade em Nova York e conselheiro de um fundo nas Nações Unidas, mas é mais legal falar que só vou para irritar o pessoal da extrema direita brasileira, que acha que a esquerda só deve ir pra Cuba.)
E por aí vai… Em alguns casos, nem a documentação da ONU ajuda. Tudo isso leva, em média, quatro vezes mais tempo que um “cidadão de bem'' levaria. Fora a falta de educação, grosserias, ironias, prepotências. Pele bronzeada, olhos puxados, enfim, cara de terrorista. Por isso, desisti de ser sincero e muitas vezes digo o que eles querem ouvir e ponto.
Em outra ocasião, estava em conexão em Londres indo para o Paquistão e teria varias horas livres para gastar na cidade. Mas não pude deixar o aeroporto pois não confiaram no que eu estava dizendo. Bem, ao menos, não me perseguiram pelas ruas e me alvejaram no metrô. A família de Jean Charles que o diga.
Voltando à Espanha, um caso que ficou famoso foi o de uma amiga, um a física paulistana, deportada em fevereiro de 2008. Ela tinha ido a Madri participar de um congresso. Chegando lá, o pessoal bem educado que cuida de fronteiras não foi com a cara dela e de outros brasileiros e os deixou em uma salinha por dias. Não adiantou explicar que ela era pesquisadora, que estava lá só para o evento, que não queria morar no exterior.
O aumento da imigração por refúgio de guerra, econômico ou ambiental em um país com maior oportunidade de emprego tem mostrado o que certas nações têm de melhor e de pior.
Uns são solidários e oferecem suas próprias casas, como na Islândia. Outros, vão buscar os imigrantes com seus carros para facilitar sua travessia, como ocorreu com austríacos e alemães. Já outros caçam imigrantes nas ruas. Sem contar os governos que erguem cercas e muros e os jornalistas que aplicam rasteiras.
Contudo, como já devem ter percebido a esta altura do texto, os elementos constitutivos da “Paranoia da Porta'' não são monopólio de portos e aeroportos gringos, mas estão presentes em nossa própria comunidade diariamente. Ou alguém aqui acredita, realmente, que o detector de metais da porta giratória de agências bancárias só apita e trava quando o portador traz consigo uma quantidade de metal?
Dia desses, fui (novamente) parado apesar de não portar metal algum. Logo após, um cliente com chaves na mão passou sem problemas. Questionei o segurança e seu controle remoto da porta. Ele, sem pudores, explicou: “desculpe, mas você pareceu suspeito e ele não''. Não admira, portanto, que vez ou outra, pessoas indignadas tirem toda a roupa em portas-giratórias após sucessivas tentativas.
Quem decide quem tem cara de confiável? Certamente, não é o segurança da agência bancária ou o fiscal de fronteira. Além das ordens expressas de superiores, eles foram treinados ao longo do tempo pela mídia, a família, instituições religiosas, a escola, que deixam claro quem merece respeito e credibilidade e quem não. Eu, certamente, não tenho uma cara 100% confiável (ajudaria um olho claro, uma pele branca, um nariz mais afilado). A moça de hijab, muito menos. Um sírio nas ruas da Hungria ou mesmo um haitiano em São Paulo, então, nem se fala.
Ao mesmo tempo, os países pouco se importam com a origem do investimento internacional que aporta em suas fronteiras. Não questionam se usa véu, se gosta de samba, se é negro ou não acredita em Jeová. Em alguns casos, nem se vem de uma ditadura sangrenta, da escravidão ou da lavagem de dinheiro. O capital é livre para circular. Já os trabalhadores são barrados em fronteiras ou morrem afogados ao tentar atravessa-las.
E os países vão se tornando reféns do medo dentro de seu próprio território. Medo criado, na maioria das vezes, por si mesmos, a bem da verdade. Medo que não é bom para a dignidade da maioria das pessoas, mas serve muito bem ao interesse de uma minoria que lucra com essa segregação.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

[Crise Migratória] Quando a imagem da morte é necessária para nos lembrar dos vivos

Um abraço àqueles que acham que isso não é problema nosso porque está acontecendo lá do outro lado do mundo. Se não é com alguém da sua família ou um amigo, tudo bem? Aquele menino era um ser humano que tinha sentimentos e sentia dor e fome do mesmo jeito que seu irmão, filho, sobrinho etc... As pessoas deveriam se colocar mais no lugar dos outros e pensar mais nas consequências dos seus atos. Pensar que a vida é muito mais do que sua rotina pela busca de dinheiro pra comprar supérfluos. A felicidade não está em objetos, não está em nada material. Devemos cultivar os bons atos e sentimentos, parar de nos iludir achando que a felicidade vem de ter um bom salário pra poder comprar tudo que você tem vontade. Cada ato tem sua consequência. Aqui não temos guerra nos moldes clássicos. Aqui a guerra é contra os marginalizados. Mas já parou pra pensar no que leva aquele jovem favelado a roubar ou traficar? Por que é raro alguém que da classe média seguir esse caminho? Será que você da classe média tem alguma culpa nisso? Em quem você votou nas últimas eleições? O que seu candidato fez pra diminuir os contrastes socioeconômicos (o grande combustível da violência)? Como você trata as pessoas que têm profissões de menor status que a sua? Quanto à questão da imigração na Europa vale lembrar que esses imigrantes estão fugindo da pobreza e das guerras causadas e financiadas pelas grandes potências, incluindo as europeias. Em quem esses cidadãos que estão incomodados com os imigrantes votaram nas últimas eleições? Votaram em candidatos que apoiam essa política colonialista que explorou e destruiu os países destes imigrantes? De onde vêm os recursos naturais, fundamentais pra manter e aumentar a riqueza dos países do primeiro mundo, muitos deles pobres em matérias-primas?

Deixo um abraço também pros europeus abastados que no passado de guerras estiveram na situação que hoje estão esses imigrantes... E deixo uma pergunta pra reflexão: se o menino não estivesse bem vestido e não fosse branco, você se comoveria do mesmo jeito com as fotos?

Luiz.


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Por Leonardo Sakamoto



Li reclamações de leitores de jornais e sites indignados com a veiculação de uma imagem do corpo morto de um pequeno menino sírio, afogado e estirado em uma praia da Turquia após uma tentativa fracassada de sua família atravessar o mar fugindo da guerra.
Publicadas com cuidado que o tema merece, por mais que doam aos olhos e mexam com o estômago e atrapalhem o jantar ou o café da manhã, imagens têm o poder de trazer a realidade para perto.
É fácil ficar indiferente diante de números de violência, mas com rostos a situação muda de figura. Dizer que milhares de pessoas morrem afogadas na tentativa de fugir do conflito na Síria ou de fome na África é uma coisa. Mas mostrar a morte de uma criança, usando as mesmas roupas e, quiçá, o mesmo corte de cabelo que o filho de qualquer um de nós é outra.

Soldado turco olha corpo de menino sírio, morto na tentativa de travessia para a Grécia (Fotos: Nilufer Demir/Reuters)
Ou trazer o corpo frio de um rapaz moreno, de olhos bonitos, que era marceneiro, e de sua noiva, professora, que gostava de cantar de manhã.
Ou ainda os cadáveres de três adolescentes de uma mesma família, que sempre esperavam até a noite acordadas a chegada do pai que trazia comida para dentro de casa.
Ou de um motorista de uma ambulância, que tinha orgulho do seu trabalho.
O outro deixa de ser estatística, e passa a ser um semelhante, pois é feito de carne e osso e não de números. Nesse momento, há uma aproximação, uma identificação, fundamental para empurrar os espectadores de um conflito para ações, de protesto, de boicote. Seja em uma crise humanitária no Mediterrâneo, em um massacre no Oriente Médio, em uma guerra entre grupos rivais na África, na luta pela independência do Sudeste Asiático ou por conta da violência armada em favelas das grandes cidades do Brasil.
Vivemos em um mundo cuja informação se espalha em tempo real. Mas, mesmo com essa facilidade, muitos se furtam de ter acesso ao mundo.
Ao mesmo tempo, a tecnologia bélica transformou certos conflitos em cenas de videogame, filtrando sangue, suor e vísceras pelas lentes de drones e câmeras de aviões e helicópteros. O que chega, não raro, à tela de uma TV, de um computador ou de um smartphone é algo asséptico, palatável, consumível em doses homeopáticas. Pois não parece humano e sim ficção.
Quando a comunicação é globalizada, cresce a força e a importância de ações globalizadas pela paz. Acertam os veículos de comunicação que divulgaram as imagens, como o UOL, que não configuram sensacionalismo como os programas espreme-que-sai-sangue da TV, que repetem aquilo que já se sabe pelo tesão da audiência. Mas são uma declaração pública contra a barbárie.
Diante disso, a ignorância do que acontece à nossa volta deixa de ser uma benção e passa a se configurar delinquência social.
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